No meu tempo de menino, boa parte do dinheiro da merenda era gasto com revistas em quadrinhos (acho que por isso eu sempre fui tão magrinho). A Marvel já não vivia sua fase de ouro, mas a concorrência era fraca e heróis como Demolidor, Homem de ferro, Capitão América e Motoqueiro Fantasma faziam minha imaginação ferver. A revista que eu mais gostava se chamava Heróis da TV. Da DC Comics eu nunca gostei muito. Os heróis da DC não tinham aquele lado humano que o Stan Lee colocava nos personagens dele, seres cheios de contradições, ao mesmo tempo homens e deuses. Essa seara rendeu muitos frutos: o Capitão América, por exemplo ficara congelado 50 anos enquanto o grande amor de sua vida envelhecia. Olha só! Como não ter compaixão por um herói desses? O Surfista Prateado era a solidão em pessoa, vagando pelo universo. E o Motoqueiro Fantasma cavalgava atormentado por paisagens áridas, sempre perseguido pelo demônio. Essa era a sacada do velho Stan Lee: criar um personagem com um passado, quase sempre perdido para sempre graças ao dever de servir em nome da lei.



O tempo passou, eu cresci. O universo dos gibis foi invadido pelos mangás. Quase esqueci aquelas histórias heróicas de personagens que salvavam o planeta, dos quais somente nós, leitores sabíamos a verdadeira identidade. Pois é. Eu quase esqueci. Estava assistindo ao Quarteto fantástico ano passado quando pensei alto "tem um personagem que eles têm que filmar! O motoqueiro fantasma". Mas assim, na esperança que minhas preces fossem ouvidas por algum anjo barrigudinho daqueles que a gente vê nos altares das igrejas. Passado uns dois meses li que o tal motoqueiro fantasma não só estava sendo filmado como nada menos que Nicholas Cage encarnaria o amaldiçoado personagem. Fiquei eufórico! Não é que o tal anjo barrigudinho existia mesmo? Aí veio o filme.

Confesso que não assisti no cinema, com toda aquela aura de emoção. Mas filme pode ser bom até mudo e em preto e branco, Chaplin que o diga. A primeira coisa que observei em o Motoqueiro Fantasma (Ghost rider, 2007) foi que a presença de Nicholas Cage era descartável na trama. Qualquer outro poderia ter sido escalado, sem demérito ao trabalho dele como ator, mas as falas do seu personagem são pouquíssimas e em suas melhores cenas ele está em forma de caveira flamejante. Não sobra muita coisa. Johnny Blaze (Cage) ganha a vida se apresentando em arriscados shows de motocicleta e tem um pacto com Mefisto (Peter Fonda): para proteger quem mais ama, ele tem que aceitar a maldição de ser um justiceiro em chamas a noite. O cenário do filme foi muito bem escolhido, a trama é boazinha, dentro do esperado.

Mas acho que o resultado final foi bem menor em relação ao que foi divulgado. E Nicholas Cage poderia ter sido mais explorado, talvez a perturbação de alguém que serve ao diabo não seja tão óbvia quanto no filme. O diretor Mark Steven Johnson também dirigiu o Demolidor. Daí você já tira que o cara é meio contido, não? Porque nas HQs da Marvel (eu sei, ele deve ter lido, claro) o tom era dramático. Imagine dirigir uma motocicleta a madrugada toda pelo deserto e ainda pegando fogo! É preciso ousar com histórias do Stan Lee, não dá para ser óbvio e acreditar que os efeitos especiais vão encobrir todas as falhas. Esse tempo de deslumbre com efeitos especiais já foi, depois de Peter Jackson acabou, não tem pra ninguém. Então a solução é explorar o emocional (é só lembrar da trilogia de sucesso chamada Homem-aranha). As pessoas pagam o ingresso no cinema buscando emoção.

Mas vamos com calma, eu sou um fã do Motoqueiro fantasma de longa data e sinto-me um pouquinho decepcionado. Mas só um pouquinho, porque já fui ver o filme esperando muito mais. No geral é um bom entretenimento. Ah, achei que faltou também uma trilha sonora mais adequada, matadora. É só imaginar assim: o que você acha que alguém que anda a 500 por hora com a cabeça pegando fogo (literalmente) ouve?? Mas recomendo. Agora vou tentar falar com o anjo barrigudinho sobre o Capitão América, Shang Chi, Thor, Homem de ferro, Namor, Tocha humana...

P.S.: Este é o terceiro artigo que eu escrevo em menos de uma semana sobre quadrinhos que viraram filmes: Homem-aranha, 300 e, agora, este.

Ficha técnica
Título Original: Ghost Rider
Gênero: Aventura
Tempo de Duração: 114 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2007
Estúdio: Columbia Pictures Corporation / Marvel Enterprises / Relativity Media / Crystal Sky Pictures / Dimension Films / Vengeance Productions Pty. Ltd.
Distribuição: Sony Pictures Entertainment / Columbia Pictures
Direção: Mark Steven Johnson
Roteiro: Mark Steven Johnson, baseado em história de Mark Steven Johnson
Produção: Avi Arad, Michael De Luca, Gary Foster e Steven Paul
Música: Christopher Young
Fotografia: Russell Boyd e John Wheeler
Desenho de Produção: Kirk M. Petruccelli
Figurino: Lizzy Gardiner
Edição: Richard Francis-Bruce
Efeitos Especiais: Sony Pictures Imageworks / Digital Dream / Gentle Giant Studios Inc. / Gray Matter FX / CafeFX / Satellite Studios

Elenco
Nicolas Cage (Johnny Blaze / Motoqueiro Fantasma)
Matt Long (Johnny Blaze - jovem)
Eva Mendes (Roxanne Simpson)
Raquel Alessi (Roxanne Simpson - jovem)
Brett Cullen (Barton Blaze)
Peter Fonda (Mefisto)
Donal Logue (Mack)
Wes Bentley (Coração Negro)
Laurence Breuls (Gressil)
Daniel Frederiksen (Wallow)
Matthew Wilkinson (Abigor)
Kirstie Hutton (Amy Page)
Gibson Nolte (Stuart)
Sam Elliott (Coveiro)
David Roberts (Capitão Dolan)
Arthur Angel (Oficial Edwards)
Jonathan Oldham (Guarda de motocicleta)